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segunda-feira, dezembro 29, 2014

ARTIGO- TDAH ainda é um transtorno mal compreendido


RIO - “Já ouvi que só era boa aluna porque tomava ritalina”, lembra Pâmela Rodrigues, de 18 anos, estudante de engenharia agrícola na UFF, em tratamento pelo Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) desde os 10 anos. Não é raro que pacientes com o problema tenham que lidar com a desconfiança e o preconceito, em geral frutos da falta de informação sobre o distúrbio e seu tratamento. O frequente mau uso de remédios e diagnósticos equivocados agravam o problema, segundo especialistas reunidos na última edição dos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar.

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Para complicar ainda mais, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo acaba de adotar novas regras para o acesso aos medicamentos. Numa portaria que passará a valer em outubro, o órgão pede que toda vez que o metilfenidato — componente da ritalina, praticamente única alternativa no tratamento do TDAH — for prescrito na rede pública, um grupo multidisciplinar de profissionais reavalie o caso do paciente. A justificativa do órgão é evitar o uso excessivo de remédio e garantir o acompanhamento do indivíduo. Mas a Associação Brasileira de Psiquiatria reagiu à medida, acusando-a de obstruir o acesso ao tratamento da população de baixa renda, além de limitar a autonomia do médico.

— Essa é mais uma barreira que se coloca no tratamento — acrescentou Cláudio Domênico, cardiologista e curador do evento realizado, na última quarta-feira, na Casa do Saber O GLOBO. — Muitas pessoas fazem mau uso do remédio, usam para virar a noite estudando ou dirigindo. Essa não é a indicação da bula, e isto acaba atrapalhando sua prescrição correta.

Embora seja um medicamento de tarja preta, a ritalina é comprada com facilidade no Brasil, hoje o segundo maior consumidor do remédio do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. De julho de 2012 a julho de 2013 foram comercializadas no país 2,75 trilhões de caixas com metilfenidato, o equivalente a R$ 54,2 bilhões, segundo a consultoria IMS Health.



Nos Estados Unidos, aliás, dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) revelavam em 2011 que cerca de 11% das crianças americanas (6,4 milhões) tinham o transtorno, contra 7,8% em 2003. Além disso, 3,5 milhões delas faziam uso do medicamento, e na década de 1990 eram apenas 600 mil. Dados como este e a declaração em 2012 de Leon Eisenberg, considerado “o pai do TDAH”, de que tratava-se “de um excelente exemplo de doença fictícia” iniciaram o debate sobre o possível excesso de diagnóstico e de prescrição de remédios no país.

Esta preocupação foi rebatida pelo psiquiatra Paulo Mattos, autor do livro sobre TDAH “No Mundo da Lua”, durante o evento do GLOBO. Ele citou um estudo publicado este ano por um grupo de pesquisadores brasileiros na “International Journal of Epidemiology”, revelando que a prevalência do TDAH não variou de 1985 a 2012 no mundo.

— Qual é a diferença deste estudo para outros que mostram um aumento? Só foram incluídos os casos cujo diagnóstico tinha sido feito por especialistas, a partir de critérios específicos — afirma Mattos. — Sabe como fizeram o estudo do CDC? Ligavam para os pais e perguntavam: “alguém já disse que seu filho tem TDAH”? Esse não é um diagnóstico preciso.


Mattos citou ainda outro estudo do mesmo grupo publicado em 2007 mostrando que o número de pessoas com TDAH no mundo é basicamente o mesmo, independente da região.

— Se a prevalência na África é igual à dos Estados Unidos, não pode ser um fenômeno cultural — disse.

Ainda de acordo com Mattos, a maioria dos brasileiros com TDAH não recebe tratamento. Segundo estudo publicado por ele e outros pesquisadores na “Revista Brasileira de Psiquiatria”, menos de 20% daqueles com o distúrbio são medicados.

— Eu estudo pessoas que têm o problema, então não podemos deixar que o uso não médico atrapalhe o que eu faço. Sei que na verdade, no país, temos poucas pessoas sendo tratadas — afirma o especialista.

Não é o caso de Pâmela e Igor Rodrigues, de 16 anos. Irmãos, ambos foram diagnosticados com TDAH e usam medicamento. A mãe, Cláudia, conta que, no início, foi resistente.

— Eu era contra. Chorei uns dois dias sem parar quando recebi o diagnóstico do Igor, que foi o primeiro, aos 6 anos. Eu só tratava meus filhos com homeopatia, nunca dava antibióticos, e, de repente, prescreveram um remédio tarja preta — relembra Cláudia, que hoje defende o tratamento. — Eles têm nitidamente uma qualidade de vida melhor.

Mesmo assim, ela ainda precisa se explicar aos desconfiados e diz ter sido chamada de “louca” por parentes e professores. Mas da época em que Igor não era tratado, Cláudia não tem tanta saudade:

— Ele escalava tudo, não parava um minuto, não dormia mais do que três horas seguidas. E eu o vigiava a noite inteira, porque era perigoso deixá-lo sozinho.

O diagnóstico só veio seis meses depois da primeira consulta com um psiquiatra, após conversas, questionários, avaliações por parte de professores e observação da criança. Além de medicamento, o jovem também fez terapia cognitivo-comportamental, a mais recomendada para estes pacientes.


‘JÁ ME PEDIRAM PARA VENDER RITALINA’

No caso de Pâmela, os sintomas não eram tão aparentes:

— Eu era muito estabanada, derrubava tudo. Demorava o triplo do tempo de qualquer pessoa para fazer uma tarefa, porque não ficava sentada um minuto. Não me concentrava.

Hoje, ambos falam sem problemas do TDAH, mas ela admite que, às vezes, há um mal-entendido sobre o distúrbio e o uso do remédio.

— Já me pediram até para vender ritalina para fazer prova — lembra.

Presidente da Associação Brasileira de Déficit de Atenção, a psicóloga Iane Kestelman tem dois filhos com o TDAH e conta que a entidade foi criada, há 15 anos, por causa da desinformação sobre o tema.

— São pessoas que sofrem muito, podem ter vidas prejudicadas se não forem assistidas — alerta.

Iane critica a desatenção por parte do governo. Ela lembra que há projetos de lei ainda em tramitação, mas ainda nada aprovado sobre o TDAH. E conta ter feito parte de um grupo de trabalho em 2008 no Ministério da Educação para elaborar um documento com diretrizes de inclusão pedagógica de pessoas com TDAH. O grupo surgiu em reação à exclusão do transtorno no texto da Política Nacional de Educação Especial.

— Depois de muita dificuldade, produzimos o documento. Mas ele sequer foi distribuído ou colocado em prática. Absolutamente nada está sendo feito — denuncia. — Foi no ministério, inclusive, a primeira vez que ouvi que teríamos que discutir se o TDAH realmente existia, tamanha a desinformação deles.

O Ministério da Educação respondeu, por nota, que o “documento preliminar” está no Conselho Nacional de Educação. O ministério ainda garante que tem trabalhado junto a universidades para difundir o conhecimento sobre o transtorno.


Comprovação

O TDAH está descrito no DSM 5, a chamada “bíblia da psiquiatria”, que define diretrizes de diagnóstico e tratamento de distúrbios mentais. Também é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. São 18 sintomas, que vão de desatenção e hiperatividade à impulsividade.

Causas

O transtorno tem um forte componente genético e afeta entre 3% a 5% das crianças do mundo. Segundo estudos, há alterações na região frontal do cérebro, responsável por autocontrole, memória, atenção e organização.

Como se manifesta

Crianças e adolescentes com TDAH são muito agitadas e inquietas. Falam e gesticulam muito. Adultos costumam ter dificuldade de organizar e planejar suas atividades. Não conseguem focar e acabam deixando trabalhos pela metade.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, ou seja, não existe um exame capaz de identificá-lo. Por isso, está sujeito a interpretações equivocadas. Questionários (para adultos e crianças), entrevista com os pacientes, pais, professores e até observação do indivíduo fazem parte do processo. Pode levar meses até o veredicto ser dado.

Tratamento

Geralmente há uma combinação de medicamento, orientação de pais e professores, e técnicas específicas para lidar com o transtorno. A terapia cognitivo-comportamental é indicada aos portadores de TDAH.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/tdah-ainda-um-transtorno-mal-compreendido-13710720#ixzz3NL2piINg 
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